...cheguei a pensar que não existe mais espaço para os detalhes, mas o detalhe tomou todo espaço, e o espaço era o detalhe, eu em cima de uma haste na boca do poço, entre o fundo e o espaço. E o equilíbrio que consigo quando me mexo é mais instável do que o tempo, que passa e me engana. Me diz: Não há poço, não há espaço moço, é só o vazio, dentro e fora e agora vá embora. E digo: sim, há o poço, o espaço e o fundo. Respiro fundo e continuo como se fosse dizer um grito para como-quem-ama: há um detalhe, de lábios mordidos e dentes quebrados, outrora remendados. O tempo me ignora e segue em frente, eu sou levado pelo mar que ele apressa em criar em uma ventania. Esqueço do poço, do fundo, do espaço e do detalhe, até o ponto que cheguei a pensar que...
...vou refazer o poço do zero. Procurar a terra expulsa. Não fui eu quem a expulsei, quem dera. Quando cheguei aqui, este poço já estava aqui, cilindrado cavado até na água, o poço já feito de si. Tiraram a terra, chegaram ao espelho e pronto. O espelho reflete o mundo, o mundo lá fora. O espelho do fundo, o mundo, em confronto. A terra expulsa, quem os separava, ganhou mundo. Viajou no solado dos sapatos, fez reboco, do barro fez do sopro, jarros que parecem vida. A terra expulsa ganhou vida e ficaram aqui, eu, o poço, a haste, e o mundo: coberto de estrelas e centelhas de tentações. Pego outra terra do lado do poço e tapo? Pois assim, novo posso nascerá, mas será outro poço. Poço é poço, seu moço. O mundo é mundo e a a haste é a haste, no final vou está trapezista do tempo sobre ela. Mas mesmo assim posso, vou refazer o poço...
…nunca bebi da água do mundo, estrelas refletem no poço. No poço não há peixes. Só água minada, uma idéia que ali há peixe pois o feixe de luz do mundo me faz pensar assim. Não dou migalhas à peixes, assim como não creio em estrelas. As vezes elas caem? Não caem do poço; do poço, elas não saem. E a haste? A haste do mundo, não vi, faz sombra no poço, do poço, não sei, faz sombra do mundo. A haste esconde os peixes, e os feixes de estrelas. Eu sou haste, estou em haste, balançando, pendendo pro poço fundo, com medo do mundo; e do detalhe pendurado nas abóbadas do meu pensamento que faz me perder no novelo do tempo e me dá fome do poço, me dá sede do mundo. Olho para cima, para os lados para os baixos, cansado do equilíbrio, e perguntoso por que nunca bebi da água do mundo…
…não se constrói um castelo de ontem pra cá. Não se fabrica o mundo com duas pinceladas. Não tenho pás, não tenho enxadas, não tenho costas largas pra aguentar a terra, o barro, e a pedra para descavar o velho poço com a pedra, o barro e a terra do novo que vou cavar. Não tenho as lágrimas que preciso vazar a enxurradas para fazer do novo poço brotar o espelho d'água. Os detalhes são muitos para um mundo se fazer em seis ofegadas, algumas apedrejadas, outras outras lamentações. Não há madeira para a nova haste, não tenho pose para saber nela equilibrar. Não sei o tempo, ou se a condição do clima do tempo vai me ajudar. Posso dizer que o poço é único? Não sei dizer se o mundo é um só. O detalhe é só um com um aldeão apenas não se constrói um castelo…
…será profissão de fé? Mas nem mesmo miro no além-estrelas, nem penso de onde mina a água do poço. São detalhes fora do detalhe, é do detalhe que mino a tranqüilidade dos meus passos. Sou franco, sim, sou franco, não sei quando vou cair no poço. Agora estou olhando pro mundo, este monstro de pele escura que me mira. A haste, este é meu palco, é possível sim que eu não chegue do outro lado. Mas de que lado? Para que lado eu vou? A existência da haste não tem sentido, o começo e o fim é o embaraço do tempo, do poço e do espaço. Girei, qualquer vento, como qual cata-vento. A haste está. Sempre esteve, nem lembro quando os anéis se foram dos dedos, sempre estive na haste, não sou castelo, não sou formiga, mililitros de passos numa coisa que será profissão de fé...
…é preciso comer do engano para me enganar que vivo no império deste trampolim. Marionete eu sou, tipo, vedete em camarim, um olhar no poço, outro no mundo, e as costas amarradas a um fio, malha invisível. E é o detalhe, o detalhe indizível que controla tudo: silencioso e escondido, autista e surdo mudo. Um botão na camisa soltando a linha e tentando atravessar o tempo, tentando largar da camiseta. Na camiseta, sou um botão de flor desenhado pensando em ser flor. E se eu for? Embora eu não vá ser botão, nem ir embora, bem sei que entre o poço e o mundo, com correntes, linhas e agulhas para pontos de cruz, há o detalhe, com sua do partitura do tempo e me captura. O detalhe parede que me prende da minha sede, me faz pensar que sou fruto verde que caído ao chão não é preciso comer...
…a gravidade das coisas que eu carrego corre mais rápido do que posso moldar em palavras, imaginar me atos. Cadarço que desata toda vez que levanto após amarrá-los. O poço me atrai físico, o mundo, metafísico. Ou é o avesso a isso? Minha atração vem da fuga? Bem que a haste poderia ser uma linha, ser de prima, de prumo, horizontal. E eu apenas trapezista. No máximo palhaço do circo, sobre mim, pendurados macacos me empurrando pro fundo ou me empuxando pro topo. Macacos tapando os meus olhos, fechando minha fala, asfixiando meus ouvidos. Poderia só ser isso, espetáculo para risada, cinema mudo em película de prata. Mas não adianta ter desejo de carlito, a haste é vertical. Me escorrego, me seguro do puxo do poço, me resguardo da sucção do mundo. Este hasta para que serve então? Além de que sustentar a gravidade das coisas que carrego...
Nenhum comentário:
Postar um comentário